REGIÃO
30/11/2025 às 21:36 por Patrick Siede


Projeto eterniza saberes missioneiros e rompe barreiras com acessibilidade

Projeto eterniza saberes missioneiros e rompe barreiras com acessibilidade
Foto: Kristian Owicki

Entre os povos, gestos e tradições das Missões, existe um território invisível que não está apenas nas ruínas, nos rituais ou na história oficial — está na memória viva de quem preserva, transmite e mantém aceso o fogo ancestral. Foi dessa percepção que nasceu o Memórias Ancestrais, projeto idealizado pela arquiteta e produtora cultural Karla Gonzalez, que buscou registrar, valorizar e devolver à comunidade a essência de práticas que atravessam séculos.

“A memória é um lugar de resistência. E quando percebemos que muitos saberes estavam se perdendo, entendi que era preciso agir. O projeto nasce da responsabilidade de honrar nossos mestres, nossos mais velhos e nossas raízes”, explica Karla.

Financiado pelo Pró-Cultura RS, o projeto documenta em profundidade práticas como o benzimento, o Café de Cambona, a carijada, a cestaria guarani, o trabalho com lã de ovelha e o canto espiritual do Coral Mbyá Guarani — sempre com respeito, escuta e sensibilidade.

Mas o Memórias Ancestrais vai além do registro. Ele se comprometeu a alcançar todas as pessoas. Isso porque o projeto incorporou acessibilidade em todas as etapas, algo raramente visto em produções culturais regionais. Todos os vídeos foram produzidos com tradução em Libras e legendas descritivas, garantindo acesso às pessoas surdas e com dificuldades auditivas. Já as cartilhas passaram por uma versão em braille, tornando-se inclusivas para pessoas cegas ou com baixa visão.

“A cultura é para todos. Sem acessibilidade, ela não cumpre seu papel social. Nossa maior responsabilidade é fazer com que cada pessoa, independentemente de sua condição sensorial, possa acessar essas histórias, reconhecer-se e emocionar-se com elas”, afirma Karla.

BENZIMENTO 

Com um altar cheio de imagens, Alzira de Oliveira Leite, benzedeira, rezadeira, mateira e parteira com mais de 70 anos de prática, compartilha rezas e histórias herdadas da mãe — que viveu até os 112 anos. Ela cura males que vão da inveja à meningite, da rendidura ao cobreiro, sempre misturando fé, intuição e sabedoria ancestral.

Registrar esse universo foi um dos momentos mais emocionantes do projeto. “Dona Alzira benze corpos e almas. Filmá-la foi como entrar num templo invisível, onde cada palavra tem força”, descreve Karla.

CAFÉ DE CAMBONA

Feito direto na cambona de ferro, com a borra baixada no fogo por uma madeira em brasa — normalmente de canela — o Café de Cambona guarda o gosto das tropeadas do século XVII e o aroma das cozinhas missioneiras. Em São Nicolau, onde a tradição é marca registrada da cidade, o café é símbolo de identidade e memória afetiva. “Ele não é só uma bebida. É encontro, é família, é roda de conversa. É memória quentinha no fogão à lenha”, reforça Karla.

CARIJADA

Na carijada, a erva-mate passa por um ritual que envolve colheita, sapeco, secagem lenta, vigília noturna e transformação no pilão. Mais que técnica, é um gesto de reverência aos povos originários, guardiões desse saber. “A carijada tem um silêncio que fala. Ali, tudo é ancestral — o fogo, o ritmo, o tempo”, diz Karla.

CESTARIA GUARANI

Com taquara verde selecionada com cuidado, secada ao sol e pintada com tintas naturais, a cestaria guarani é feita por homens, mulheres e crianças. Os grafismos — muitos inspirados na pele da cobra — carregam significados de proteção e espiritualidade. “Cada cesto é mais que utilidade. É um modo de viver. É uma poesia feita à mão”, comenta Karla.

LÃ DE OVELHA

Artesã desde menina, Dalva Mothci domina a fiação e o tingimento natural, produzindo mais de 15 tons de lã sem corantes artificiais. Suas peças, que já chegaram à Semana Internacional da Moda Autossustentável de Milão, são expressão de uma tradição que envolve criação de ovelhas, cuidado, conhecimento e sensibilidade. “A lã carrega aconchego, família e trabalho. É memória tecida ponto a ponto”, descreve Karla.

CORAL GUARANI

Com vozes que ecoam a mata, o Coral Guarani canta melodias herdadas dos ancestrais. Para eles, cantar é espiritualidade, é comunicação com o sagrado, é afirmação identitária. “É impossível não se emocionar. Eles cantam com a alma. Cada canto é um universo que se abre”, diz Karla.

ACESSIBILIDADE

Um dos maiores orgulhos de Karla foi garantir que o projeto fosse acessível do início ao fim:
✔ Vídeos com Libras;
✔ Legendas descritivas, incluindo sons e ambientações;
✔ Cartilhas inteiras em braille, para distribuição em escolas, instituições e acervos públicos.

“Nossa cultura só vive plenamente se todos puderem acessá-la. Ao trazer Libras, braille e descrição, quebramos barreiras e ampliamos o alcance dos saberes ancestrais”, destaca.

LEGADO

Com exibição no Museu Histórico das Missões, o projeto entregou à comunidade não apenas registros, mas um gesto de responsabilidade cultural. “Memórias Ancestrais é sobre cuidar do que nos construiu. É sobre honrar o passado e garantir que ele permaneça vivo no futuro. É nosso agradecimento aos ancestrais — e nosso presente para quem virá depois”, conclui Karla.

Totens com informações sobre os fazeres ancentrais foram instalados em Santo Ângelo, São Miguel das Missões, São Nicolau e Cerro Largo. 

Texto: Patrick Siede


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