REGIÃO
19/01/2020 às 21:53


Sugestão de canonizar Sepé Tiaraju gera controvérsia na região

Sugestão de canonizar Sepé Tiaraju gera controvérsia na região
THAYAN LISBOA/AT

Há vários meses tramita no meio histórico e cultural a ideia de canonizar Sepé Tiaraju. A sugestão partiu de um grupo de pessoas da região, ligados a uma agência de turismo que opera com o destino Missões. E, a partir dali, ganhou repercussão internacional. Como não houve pedido pelas Missões, um grupo da Diocese de Bagé encaminhou o documento, solicitando a inclusão do até então herói da Guerra Guaranítica a um título de Santo. O pedido partiu de Bagé, através do bispo, hoje emérito, Dom Gílio Felício. De acordo o padre Alex Klopenburg, que integra a comissão da causa da beatificação de Sepé Tiaraju, o processo iniciou há cerca de dois anos. O padre informa que foi criada uma oração e uma estampa para a beatificação. Ele explica que o Vaticano acolheu e liberou para seguir o processo e que Sepé já podia ser invocado como “Servo de Deus”, que é o primeiro passo para à “beatificação”, e depois à “canonização”. O QUE DIZ A DIOCESE O bispo Dom Liro Meurer, perguntado sobre o motivo que levou a Diocese de Santo Ângelo a não encaminhar pelas Missões o pedido de canonizar Sepé leva em consideração o fato de não ter sido encontrado nenhum documento comprovando o batizado do índio nas reduções. Segundo ele, não significa contrariedade à ideia, mas sim, uma medida tomada em função da ausência de provas e pessoa especializada na diocese nesta área. OPINIÕES DIVERGEM A pesquisadora Claudete Boff, mestre do curso de Arquitetura e Urbanismo da URI destaca que seria inimaginável um povoado missioneiro sem os santos. “A história precisa de mitos e de referências. Então , se este processo de canonização vai ser conduzido com todos seus argumentos justificados, contempla-se estes dois aspectos. Modelo de religiosidade unido ao mito histórico”, disse. O historiador Mário Simon, profundo conhecedor e autor de diferentes obras históricas que envolvem a história missioneira e de Sepé, diz que se há muita coisa na vida que deixa a gente confusa, uma é essa história de quererem santificar o cacique missioneiro José Tiaraju. “Se a mim surpreende a atual investida pela santidade de Sepé, que acontece, pelo que me consta, a partir do bispado de Bagé, na minha ignorância fico aguardando atentamente esclarecimentos. Eu até aceito: mas não entendo. Que Sepé me ajude”, diz. Para o advogado e fundador do Grupo de Estudos sobre Inteligência Humana, Paulo Leal, a canonização de Sepé tem o mesmo efeito que a igreja tentar canonizar Buda ou Maomé. “É um desrespeito com a religiosidade de cada um”, diz, acrescentando “um desrespeito com a cultura guarani, completamente diferente. A igreja católica não conseguiu converter um índio sequer. Isso é um desrespeito com a espiritualidade guarani”, destacou. Ele também ressaltou que Sepé Tiaraju, além de guerreiro era o líder espiritual de seu povo. José Roberto de Oliveira, mestre em desenvolvimento e escritor, que encampou a busca pela canonização de Sepé Tiaraju, disse que é preciso reconhecer a santidade do herói e que a região trabalha nisso há mais de 50 anos. “Apareceu um bispo de Bagé que quis encampar”, disse. Segundo ele, o processo está na segunda fase e que as pessoas na região pensam Sepé Tiaraju a partir dos escritos de Scheuiche (citando o historiador e escritor que também relata em obras a história de Sepé). Mas, segundo José Roberto a verdadeira história do herói se encontra em Roma, em manuscritos que não foram lidos pela região, que são os diálogos de guerra. “As pessoas aqui leram os documentos escritos pelos inimigos, são os relatórios dos portugueses”, disse, acrescentando que a canonização vai simbolizar finalmente o respeito ao índio e sua representatividade.


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