
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) manifestou forte preocupação com o atual cenário do ensino médico no Brasil. Em visita à Região das Missões, a diretoria da autarquia esteve no programa Aldeia Global, da Rádio Sepé, e criticou a política de expansão de cursos de medicina.
O argumento é de que o aumento no número de profissionais formados não resolve as deficiências da saúde pública — e pode agravá-las, pela baixa qualidade da formação que acompanha esse crescimento.
O alerta acontece em um momento de acirramento do debate nacional. Entre 2004 e 2024, o número de cursos de medicina no Brasil saltou de 143 para 448, enquanto as vagas anuais passaram de 13.820 para 48.491, com quase 80% da expansão concentrada em instituições privadas.
No Rio Grande do Sul, o cenário não é diferente: o estado já conta com 23 cursos de medicina, sendo 16 privados, e cerca de 2 mil vagas anuais. Com autorizações obtidas por via judicial entre 2024 e 2025, foram criados três novos cursos no estado, adicionando 180 vagas anuais e elevando o total para 2.033 vagas por ano.
Para o presidente do Cremers, Régis Angnes, a abertura de cursos em cidades sem infraestrutura hospitalar adequada é uma estratégia política que ignora a realidade técnica. Ele cita como exemplos projetos em cidades como Bagé e Serra Larga.
"É medida eleitoreira. Absolutamente medida eleitoreira. Não é levando um curso de medicina que tu vais resolver [os problemas de saúde]. Tem que qualificar o hospital da cidade", afirmou o presidente.
A crítica é reforçada pelo médico Juliano Gressler, delegado da seccional de Santo Ângelo, que aponta um paradoxo na região. Segundo ele, hospitais em cidades que pleiteiam faculdades de medicina muitas vezes não conseguem realizar procedimentos básicos, como cirurgias de apendicite, que acabam sendo encaminhadas para centros regionais. A abertura de novos cursos sem estrutura adequada para ensino, sem campos de prática garantidos, sem hospital-escola, sem novos leitos SUS e Equipes de Saúde da Família traz um prejuízo incalculável para a saúde da população, com a precarização da formação médica.
O Cremers não tem ficado inerte diante do avanço. Em 2025, o conselho combateu a abertura indiscriminada de cursos de medicina acionando a Justiça e o Ministério Público para garantir que novas faculdades cumprissem rigorosamente os requisitos de infraestrutura e qualidade de ensino. A pressão surtiu efeito: em outubro de 2025, o Ministério da Educação suspendeu propostas para autorização de novos cursos, admitindo a necessidade de "garantir que a expansão da formação médica ocorra de forma planejada e equilibrada".
Um dos pontos mais contundentes abordados na entrevista foi o impacto econômico de médicos mal preparados sobre o sistema público de saúde. Segundo o conselho, a insegurança técnica leva diretamente ao desperdício de recursos públicos.
O Dr. Luciano Haas, coordenador do Departamento de Fiscalização do Cremers, explica que médicos com formação deficitária tendem a solicitar exames desnecessários e não realizam um exame clínico eficiente.
"Médicos mal formados custam mais caro tanto para o SUS quanto para os hospitais porque são médicos inseguros que tendem a pedir mais exames e encarecer todo o processo", destacou Haas.
O conselho também apontou o caráter comercial dos grandes grupos educacionais privados, que veem na medicina um negócio altamente lucrativo. Com mensalidades que chegam a R$ 15 mil, a abertura de 100 vagas representa um faturamento estratosférico, nem sempre revertido em qualidade de ensino.
O Cremers alerta que a ocupação intensiva de unidades públicas de saúde por instituições privadas sem experiência consolidada tem provocado um "leilão" de campos de estágio, em prejuízo das universidades públicas. Das 23 graduações em medicina no RS, apenas seis são mantidas por universidades federais, que não tiveram ampliação de vagas e enfrentam competição desigual por campos de prática.
Redação Grupo Sepé