
A saúde pública em Santo Ângelo foi tema de análise da vereadora e enfermeira Andreia Bernardi (PDT), em entrevista nesta segunda-feira, 18, ao programa Aldeia Global, da Rádio Sepé. Atuando como ponte entre a classe profissional e o Poder Legislativo, a parlamentar abordou a importância da Semana Científica Integrada de Enfermagem e trouxe à discussão dois temas críticos para o município: a sobrecarga na Unidade de Pronto Atendimento e o desgaste emocional dos profissionais que atuam na linha de frente.
Um dos pontos centrais da conversa foi a morte de uma jovem de 17 anos em decorrência de pneumonia no município. A tragédia levantou questionamentos sobre triagem e capacidade de atendimento nas unidades de urgência. Segundo Bernardi, a preferência da população pela UPA em detrimento das unidades de bairro decorre da percepção de maior resolutividade no atendimento.
"A população já é ciente que se ela procurar a unidade de pronto atendimento, ela vai ter uma resolutividade melhor no seu atendimento", afirmou a vereadora. O acesso imediato a exames laboratoriais e de imagem, como o raio-X, atrai pacientes que buscam diagnósticos rápidos. Esse fluxo contínuo, no entanto, testa os limites do sistema e dos profissionais.
Bernardi defendeu a transição do modelo tradicional de triagem para o de acolhimento, baseado no Protocolo de Manchester. Criado em 1994 na cidade britânica que lhe dá nome, o método classifica os pacientes não pela ordem de chegada, mas pela gravidade dos sintomas, usando cores para indicar prioridade de atendimento. A UPA de Santo Ângelo já adotou o protocolo, avaliado como um dos métodos de triagem mais eficazes do mundo, que permite atendimentos mais rápidos e com tratamento imparcial para todos.
Ainda assim, a vereadora reconhece que o sistema não é infalível. Sobre a morte de Maria Eduarda, foi enfática: "É inadmissível uma perda de uma jovem de 17 anos aqui no nosso município." Bernardi ressaltou que a enfermagem precisa estar atenta a sintomas que hoje se manifestam de forma diferente em relação às décadas anteriores.
Além da estrutura operacional, a saúde mental dos trabalhadores emergiu como preocupação urgente. A vereadora relatou que muitos profissionais ainda carregam as marcas psicológicas do período mais crítico da pandemia de Covid-19. Os relatos que ela compartilhou revelam um adoecimento silencioso e persistente.
"Muitos profissionais ainda não se recuperaram. Nossa saúde mental está abalada. Nós ficamos muito abalados vivendo e vivenciando aqueles quase três anos ali", descreveu a vereadora, reproduzindo falas de colegas de profissão.
Valorização e a luta pelas 30 horas
A entrevista abordou também a pauta nacional da categoria: a redução da jornada de trabalho. Em Santo Ângelo, a carga horária varia entre 36 e 40 horas semanais, dependendo da unidade.
O piso nacional da enfermagem é atualmente de R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para técnicos e R$ 2.375 para auxiliares e parteiras, conforme a Lei 14.434/2022, mas lideranças do setor consideram os valores defasados diante da inflação acumulada e da sobrecarga de trabalho.
Para Bernardi, a valorização passa pelo reconhecimento salarial, mas também por condições de trabalho que permitam um atendimento mais humanizado. "Nós enfermeiros, e principalmente o técnico de enfermagem, somos aqueles que ficam ao lado do paciente por 24 horas. É um pilar fundamental para que esse atendimento aconteça", destacou.
Redação Grupo Sepé