
As cooperativas agropecuárias e de crédito propõem um Plano Safra 2026/2027 com R$ 674 bilhões em recursos totais e reforço na equalização de juros, em uma tentativa de ampliar o alcance do crédito rural diante do custo financeiro elevado e puxar o programa para um novo patamar, acima do crescimento marginal observado no último ano.
Documento, obtido com exclusividade pelo CNN Agro, será apresentado ao governo pelo Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) e pede uma ampliação relevante do crédito rural, que na safra 2025/2026 ficou em cerca de R$ 594 bilhões.
Na prática, esse pedido tem respaldo em um diagnóstico claro do setor: o crédito rural tradicional tem perdido espaço diante do custo financeiro elevado, enquanto as cooperativas seguem como principal canal de acesso para produtores, especialmente os menores e médios.
Esse peso sustenta o argumento central do documento: ampliar recursos e fortalecer cooperativas é uma forma de garantir capilaridade, reduzir risco e melhorar a eficiência da política agrícola.
As cooperativas pedem R$ 674 bilhões, com a seguinte divisão: R$ 520 bilhões para custeio e comercialização, R$ 154 bilhões para investimento e agroindustrialização e R$ 27 bilhões para equalização de juros. Outro ponto é o seguro rural, tratado como prioridade. O setor propõe R$ 4 bilhões em 2026 e R$ 4,5 bilhões em 2027
Além do volume, o documento detalha as condições de financiamento, com taxas de juros que variam conforme o perfil do produtor e a linha de crédito.
Taxas de juros
No Pronaf, a proposta prevê taxa entre 0,5% e 6% ao ano, com limite de contratação de até R$ 400 mil a R$ 700 mil, a depender da atividade.
Para o Pronamp, as taxas sugeridas são de 8% ao ano, tanto para custeio quanto para investimento, com limites que chegam a R$ 2 milhões no custeio e R$ 800 mil nos investimentos.
Já para os demais produtores e cooperativas, as taxas podem chegar a 11% ao ano, com limites de até R$ 6 milhões no custeio.
Nas linhas de investimento, os percentuais propostos incluem: 10% ao ano para programas como Moderfrota e Proirriga; 8% ao ano no RenovAgro, com limites que chegam a R$ 45 milhões em projetos coletivos; 9% ao ano no PCA (Programa de Construção de Armazéns) e 11% ao ano em linhas como Prodecoop e Procap-Agro Giro
O documento também reforça o papel estratégico das cooperativas dentro do sistema financeiro rural e propõe mudanças no acesso ao crédito, com ajustes nas regras de enquadramento.
Entre as medidas, destacam-se o acesso pleno ao Pronaf para cooperativas com 60% ou mais de agricultores familiares; a elevação dos limites de renda, aumento do Pronaf de R$ 500 mil para R$ 750 mil, aumento do Pronamp de R$ 3,5 milhões para R$ 4 milhões e ajustes nos critérios para cadeias de maior valor agregado. O argumento é que os limites atuais ficaram defasados frente ao aumento dos custos de produção.
Investimentos
Na parte de investimento, o setor pede a inclusão de armazenagem frigorificada como item financiável, dentro de linhas como o PCA (Programa de Construção de Armazéns), que na proposta soma R$ 9 bilhões, com taxa de 9% ao ano e limite de até R$ 250 milhões por operação. Para estruturas menores, de até 12 mil toneladas, o volume previsto é de R$ 4 bilhões, com taxa de 8% ao ano e limite de até R$ 50 milhões.
Também defende a ampliação do acesso ao RenovAgro (Programa de Financiamento a Sistemas de Produção Agropecuária Sustentáveis), com dotação de R$ 10 bilhões, taxa de 8% ao ano e limites de até R$ 5 milhões por beneficiário e R$ 45 milhões em projetos coletivos, tendo as cooperativas como canal de execução.
Outras linhas de investimento incluem o Moderfrota, com R$ 5 bilhões no Pronamp e R$ 12 bilhões para demais produtores, ambos com taxa de 10% ao ano, além do Proirriga, com R$ 3 bilhões, taxa de 10% ao ano e limites de até R$ 4 milhões por produtor e R$ 12 milhões em projetos coletivos.
A proposta também prevê R$ 9 bilhões para o Prodecoop e R$ 5 bilhões para o Procap-Agro Giro, ambos com taxa de 11% ao ano e limites que chegam a R$ 500 milhões para cooperativas centrais.
Fortalecimento das cooperativas
Hoje, as cooperativas estão presentes como única instituição financeira em mais de 464 municípios e respondem por mais de 50% da safra de grãos, além de concentrarem fatias relevantes em cadeias como trigo, café e proteínas.
Esse papel ganha ainda mais relevância em um cenário em que o crédito público perde espaço e o financiamento migra para o mercado.
Por isso, o setor defende o fortalecimento das cooperativas de crédito como operadoras do programa, a
ampliação da atuação do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), inclusive via cooperativas financeiras, além de estímulo a projetos coletivos de financiamento
A proposta vai na contramão do cenário que vem sendo desenhado nos bastidores do governo.Como o CNN Agro mostrou, a tendência é de um Plano Safra com crescimento mais próximo da correção pela inflação, justamente pelo peso da equalização de juros em um ambiente de Selic elevada.
Quanto maior a taxa básica, maior o custo para o Tesouro bancar os subsídios — o que limita a expansão do programa.Hoje, taxas de crédito rural chegam a dois dígitos mesmo com subsídio, e, sem reforço orçamentário, o crédito tende a ficar mais caro e restrito.
Fonte: Cristiane Noberto, da CNN Brasil