AGRO
21/04/2026 às 10:59 por Ricardo Bolson


El Niño deve trazer chuvas acima da média e desafiar a agricultura no RS em 2026

El Niño deve trazer chuvas acima da média e desafiar a agricultura no RS em 2026

A confirmação do fenômeno climático El Niño para o segundo semestre de 2026 coloca o Rio Grande do Sul em estado de alerta. Com o fenômeno esperado para se intensificar entre novembro e dezembro e persistir nos primeiros meses de 2027, as projeções indicam alterações significativas no regime de chuvas na região, trazendo tanto esperança quanto desafios estruturais e produtivos, especialmente para o setor agrícola.

Em entrevista ao programa Aldeia Global, da Rádio Sepé, o professor Luís Henrique Loose, do Instituto Federal Farroupilha (IFFar) de Santo Ângelo e estudioso dos fenômenos climáticos, detalhou o cenário. Segundo Loose, o El Niño já começa a dar sinais. "Ele atingiu a temperatura, pela primeira vez nesse ano, de 0,5º positivos acima da média, o que configura um El Niño fraco, mas ele está esquentando."

O dado está alinhado com as projeções das principais instituições de monitoramento climático. De acordo com o boletim mais recente do Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, há 62% de probabilidade de estabelecimento do El Niño no trimestre junho-julho-agosto. A partir de agosto, essa chance supera 80% até o fim de 2026.

Calendário de chuvas: o que esperar nos próximos meses

A principal característica de um El Niño de forte intensidade é a ocorrência de chuvas acima da média histórica. O professor Loose destaca que a distribuição dessas precipitações não será uniforme, concentrando-se em períodos específicos que exigem atenção redobrada da população e do poder público. Os meses com maior probabilidade de excesso hídrico são outubro, novembro e dezembro; fevereiro; e abril e maio, quando ocorre o chamado "repique" do fenômeno, com risco de novos episódios críticos.

Loose alerta que, embora o El Niño por si só garanta mais umidade, a ocorrência de eventos extremos como as enchentes de 2024 depende de fatores combinados: "O El Niño por si só a gente sabe que vai ter mais chuvas, mas não dá para dizer que vai ser aqueles episódios extremos. Tem que ter outros fenômenos associados como o ciclone extratropical."

Impactos na agricultura: o desafio do trigo e a esperança da soja

O setor agrícola é um dos mais sensíveis às oscilações do El Niño. A cultura do trigo é uma das mais prejudicadas. Em anos de El Niño forte, a produtividade gaúcha tende a cair 13% e, em regiões como Santo Ângelo, esse índice pode chegar a 18% abaixo da média. O problema central é que o excesso de chuva em outubro coincide com a fase de colheita e maturação da planta.

O cenário encontra confirmação nos números do mercado. A FecoAgro-RS projeta queda de 15% na área plantada com trigo em relação ao ciclo anterior, quando a cultura ocupou cerca de 1,15 milhão de hectares no Rio Grande do Sul, representando a saída de aproximadamente 170 mil hectares da triticultura gaúcha. A pressão vem também do lado econômico: com o custo de produção na casa de 67 sacas por hectare e a saca de 60 quilos oscilando em torno de R$ 59, a conta simplesmente não fecha para grande parte dos triticultores gaúchos.

Para as culturas de verão, como soja e milho, o cenário é ambivalente. Em outubro e novembro, o excesso de chuvas deve dificultar a entrada de máquinas no campo, repetindo os problemas da safra 23/24. Uma vez estabelecida a lavoura, porém, a tendência de precipitações em janeiro e fevereiro favorece o potencial produtivo, trazendo esperança aos produtores de terras altas que não sofrem com encharcamento.

O professor Loose reforça a necessidade de manejo técnico. "É um momento de esperança para o produtor que vem de vários anos com seca, mas é preciso fazer um bom manejo de palhada no inverno para evitar problemas de erosão."

Atenção às pragas e doenças

Outro ponto de atenção para os agricultores é o inverno mais ameno, comum em anos de El Niño, que favorece a sobrevivência de pragas. Loose cita o exemplo da cigarrinha-do-milho, que encontra condições ideais para se manter em invernos menos rigorosos, exigindo manejo rigoroso de plantas voluntárias para quebrar a chamada "ponte verde" da praga. O INMET reforça que o excesso de umidade no solo associado ao El Niño também favorece a ocorrência de problemas fitossanitários nas lavouras.

Planejamento com base em dados locais

Para enfrentar o fenômeno, especialistas recomendam que as decisões sejam baseadas em dados locais e não apenas em previsões globais generalistas. O planejamento deve contemplar janelas curtas de sol para a colheita do trigo e a proteção do solo contra a erosão causada pelo excesso de chuvas.

O cenário de 2026 exige vigilância constante, especialmente em áreas com histórico de alagamentos. Como recorda o professor Loose, em dezembro de 2015 um El Niño muito forte chegou a registrar 500 mm de chuva em um único mês na região de Santo Ângelo.

Redação Grupo Sepé 


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