
Um relatório elaborado por 14 especialistas do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul, divulgado nesta sexta-feira (8), confirma a tendência de o fenômeno El Niño provocar chuvas mais intensas durante a primavera no Estado, com maior risco de cheias, alagamentos e deslizamentos de terra.
O documento alerta, porém, que é muito cedo para dizer se o aquecimento do Pacífico que caracteriza o fenômeno será forte ou muito forte, como indicam algumas previsões internacionais. O comitê orienta o poder público e a iniciativa privada, por precaução, a "revisar seus planos de ação e contingência visando a preparação prévia da infraestrutura, com foco na garantia dos serviços essenciais à população".
Nas últimas semanas, prognósticos feitos por instituições como o Centro Europeu de Previsões Climáticas de Médio Prazo (ECMWF) têm mostrado um cenário cada vez mais favorável ao surgimento de um El Niño de grande intensidade no final do ano — com a temperatura da água do Pacífico pelo menos 2°C acima da média.
Coordenador da nota técnica, o climatologista José Marengo sustenta que será preciso esperar até o inverno para calibrar com maior precisão a força do fenômeno.
— Para outubro, aparece (pelas previsões atuais) um aquecimento de 3°C, que, segundo a NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, dos EUA), seria um El Niño superintenso. O problema é que nós estamos em maio, e fazer uma previsão para outubro é realmente muito incerto, não é seguro — pondera Marengo, que também lidera o setor de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Por isso, a nota técnica sustenta que "ainda não é possível ter certeza se os impactos do El Niño 2026-27 serão menores, similares ou maiores do que em 2023-24. Mas sabe-se, certamente, que ocorrerá algum tipo de impacto para a população e atividades no estado do Rio Grande do Sul".
Os especialistas recomendam o uso integrado de monitoramento e prognósticos para seguir avaliando a situação.
Segundo a análise, "baseado no comportamento de El Niños anteriores, o que se espera são chuvas acima do normal na primavera de 2026, e temperaturas acima do normal no inverno. Espera-se também uma tendência de maior probabilidade de eventos localizados na primavera de 2026, tais como tempestades e chuvas intensas, que podem gerar, em áreas suscetíveis, alagamentos, inundações, enxurradas, movimentos de massa, entre outros impactos de origem geo-hidro-meteorológica".
O documento acrescenta ainda que "a ocorrência de El Niño, por si só, não implica na materialização de desastres, que dependem também de fatores como exposição e vulnerabilidade. Ainda assim, o cenário reforça a necessidade de preparação por parte da gestão pública, com planos de contingência estruturados, atualizados e devidamente comunicados".
— A previsão ainda vai consolidar. O grau de incerteza neste momento não permite ser taxativo. Todos os modelos indicam um El Niño forte, mas um cientista precisa estar com os pés na significância estatística. Na próxima rodada (de avaliação), esse cenário vai estar melhor definido e com um grau maior de significância — avalia o meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria Vagner Anabor, que também assina a nota.
A íntegra do documento pode ser conferida no site do governo gaúcho.
Fonte: GZH