
A inclusão escolar de crianças autistas em Santo Ângelo atravessa um momento crítico. Em entrevista ao programa Aldeia Global, da Rádio Sepé, Andrea Benedetti, presidente da Associação de Pais e Amigos dos Autistas (AMA) e professora com 30 anos de experiência, revelou um cenário de carência profissional e falhas estruturais que impedem o cumprimento da legislação vigente.
Segundo dados da Secretaria Municipal de Educação (Smed) citados por ela, a rede municipal conta hoje com 301 crianças laudadas com autismo — e o suporte oferecido é considerado insuficiente.
Um dos pontos centrais da crise é a forma como os monitores são contratados. O município de Santo Ângelo não possui o cargo de monitor no quadro de concurso público e recorre a contratos de estágio via CIEE.
Benedetti critica a falta de qualificação e a baixa remuneração — frequentemente abaixo de um salário mínimo — para uma função que exige alta complexidade. "Falta qualificação, falta número e falta qualidade", resumiu a presidente, destacando que muitos desses jovens são estudantes de magistério ou de graduações iniciais que acabam atuando como suporte pedagógico, sem a formação necessária para mediar o aprendizado de uma criança no espectro autista.
A legislação federal é clara a esse respeito: a Lei Berenice Piana (Lei n.º 12.764/2012) estabelece que, em casos de comprovada necessidade, a escola deve disponibilizar um acompanhante especializado — mediador ou professor de apoio — sem ônus para a família. O que se vê na prática, no entanto, é o inverso: muitos municípios colocam estagiários com baixa capacitação no lugar desses profissionais.
A ausência de um mediador especializado não prejudica apenas o aprendizado, mas compromete o futuro da criança. Andrea, que também é mãe de dois filhos autistas, relata o drama das famílias.
"As mães estão adoecendo porque é um processo muito dolorido para nós. Uma criança que não está em sala de aula ou não tem seu desenvolvimento, ela perde anos de vida, anos de total independência."
A sobrecarga recai majoritariamente sobre as mães — muitas delas solo — que se veem impedidas de trabalhar para suprir a lacuna deixada pelo Estado. Para a presidente da AMA, a negligência atual é uma barreira direta à autonomia. "Estamos atentando contra a vida de uma criança que poderia ser completamente independente."
As estatísticas reforçam a urgência do debate. O relatório mais recente do CDC dos Estados Unidos, divulgado em abril de 2025, aponta que 1 em cada 31 crianças de 8 anos recebe diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista — a prevalência mais alta já registrada pelo órgão. Uma projeção equivalente para o Brasil indica que o país poderia ter cerca de 6,9 milhões de pessoas autistas. É nesse contexto que Andrea Benedetti afirma que, em 2026, a estimativa de um nascimento autista para cada 31 já é uma referência que o poder público local não pode ignorar.
Apesar do aumento nos diagnósticos, as políticas públicas não acompanharam o ritmo. Diante da falta de vagas ou de suporte adequado, muitas famílias têm recorrido ao Judiciário. Benedetti alerta, porém, que a judicialização gera uma disparidade financeira e administrativa: enquanto o monitor contratado via CIEE recebe cerca de R$ 900,00, um profissional obtido por ordem judicial pode custar mais de R$ 2.000,00 aos cofres públicos.
Diante dos custos elevados, e muitas negativas de acesso aos serviços, a realidade é de cansaço. "O gestor público tem obrigação. Eu já estou cansada de estar tentando, as mães não querem ouvir 'estamos tentando', porque é um direito constitucional", desabafou.
A AMA busca agora articular uma audiência pública com o Legislativo, a Promotoria e as Coordenadorias de Educação para definir estratégias concretas. O objetivo é tirar do papel leis como a Lei Berenice Piana (Lei n.º 12.764/2012) e a Lei Estadual n.º 15.322/2019 — a Política Estadual de Atendimento Integrado à Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, que no Rio Grande do Sul foi reforçada mais recentemente pelo Programa TEAcolhe RS — e transformá-las em prática cotidiana nas escolas de Santo Ângelo.
"Precisamos de um plano de ação, não apenas reconhecer o problema", concluiu Benedetti, reafirmando que a associação está aberta ao diálogo com gestores e disposta a oferecer formação e suporte técnico por meio de seus voluntários.
Redação Grupo Sepé