
As celebrações dos 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis darão um salto tecnológico e artístico com a implementação de um sistema permanente de projeção mapeada em Santo Ângelo. O projeto, que está em fase avançada de licitação, promete transformar a experiência turística da região com um espetáculo de nível internacional.
Segundo o coordenador do Grande Projeto Missões, Álvaro Theisen, a qualidade das propostas apresentadas pelas empresas concorrentes garante que a cidade terá um "espetáculo padrão Disney".
O espetáculo será apresentado diariamente na fachada da Catedral Angelopolitana e no prédio da antiga Prefeitura, que sedia o Museu Histórico das Missões. Com orçamento de R$ 5,9 milhões, a iniciativa pretende criar um espetáculo diário no centro histórico contando a história das missões jesuítico-guaranis com foco nos 30 povos Missioneiros.
O processo licitatório, conduzido sob o modelo de "técnica e preço", exigiu que as empresas apresentassem um demo — uma amostra artística de dois a três minutos — para qualificar as ofertas. O nível das apresentações surpreendeu a coordenação. "Eu vi os demos e muitos deles estão bom nível, excelente, surpreendente", destacou Theisen.
Para garantir a excelência do resultado final, a comissão avaliadora utiliza critérios extremamente objetivos e detalhados. O sistema de pontuação assemelha-se ao de grandes eventos culturais brasileiros. "Os critérios foram critérios objetivos. É tipo nota de escola de samba: você faz uma avaliação para cada quesito e os subesquisitos", explicou o coordenador.
No total, são quase 100 itens avaliados. A parte técnica representa 70% da nota final e o preço responde pelos outros 30%. O projeto também prevê a instalação de um sistema de sonorização que permita ao espectador assistir ao filme criado especificamente para o local, sem interferir na paisagem e na vizinhança. Entre as tecnologias previstas estão projeções em 2D e 3D, áudio em três idiomas e sistema de "balada silenciosa" com fones de ouvido importados.
Apesar do entusiasmo com a qualidade artística, a implementação para o grande público deve ocorrer apenas no primeiro trimestre de 2027. Theisen mantém uma postura realista quanto aos prazos, citando a complexidade das obras complementares necessárias na praça de Santo Ângelo.
Embora os projetores já estejam na cidade, a prefeitura ainda precisa licitar o sistema de suporte e a infraestrutura de proteção dos equipamentos. "Será necessário, por exemplo, um sistema de ar-condicionado no projetor e um sistema de abre e fecha para proteger os equipamentos. Tem toda uma complexidade, uma sala de comando", detalhou. Theisen aponta que a rotina burocrática municipal frequentemente dificulta o planejamento paralelo de ações, o que empurra a inauguração para o início do próximo ano.
O projeto de projeção mapeada em Santo Ângelo integra um aporte massivo de recursos no Grande Projeto Missões. Em ato no Palácio Piratini no ano passado, o governador Eduardo Leite e o então secretário da Cultura, Eduardo Loureiro, assinaram os primeiros 16 convênios com 12 municípios, totalizando um investimento de mais de R$ 50 milhões, destinados à requalificação de museus e à criação de novos atrativos turísticos e culturais. O total de recursos mobilizados pelo Grande Projeto Missões soma quase R$ 90 milhões, entre obras municipais, projetos especiais da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) e fomento ao turismo.
Esse volume financeiro é sem precedentes para a história missioneira. Theisen destaca que, historicamente, a soma dos investimentos em cultura e turismo dos 27 municípios da região girava em torno de R$ 3 milhões anuais. "Nós estamos investindo 20 vezes o que a soma dos municípios investe. É já um indício aí de que estamos vivendo um momento histórico", afirmou.
Os dois espetáculos de projeção mapeada — em Santo Ângelo e nas Ruínas de São Miguel — serão complementares e não concorrentes, cada um enfocando uma parte diferente da história missioneira e aproveitando os elementos arquitetônicos específicos de cada edifício. O roteiro de cada filme será produzido por uma equipe de historiadores, suportado por um roteirista de cinema. Além da projeção, o plano inclui escavações arqueológicas em São Nicolau, a formação de milhares de professores e a criação de museus e centros de interpretação em diversas cidades, consolidando a região como destino turístico relevante no cenário nacional.