GERAL
28/05/2026 às 11:01 por Matheus Teixeira


Após batalha judicial, família recebe medicamento para tratamento de menino com síndrome rara no RS

Após batalha judicial, família recebe medicamento para tratamento de menino com síndrome rara no RS
Fonte: Tiago Boff / RBS TV

Há cinco anos, a família de Lorenzo Silveira, 12 anos, vive uma corrida contra o tempo. Após o diagnóstico de que o menino sofre de uma síndrome rara, a distrofia muscular de Duchenne, os pais viram o único filho ter os movimentos limitados pelo avanço da doença. Na noite de quarta-feira (27), após uma batalha judicial, a família moradora de Capão da Canoa, no Litoral Norte, recebeu um dos remédios que pode auxiliar o garoto a retardar os efeitos da síndrome.

Desde que obtiveram o diagnóstico, a mãe Cíntia Claudino, 38 anos, e o pai Jefferson da Rosa Silveira, 37, vêm realizando uma série de mobilizações para garantir que o menino tenha acesso às medicações que permitam tratar ou atrasar os efeitos da síndrome. Um dos objetivos iniciais era arrecadar R$ 16 milhões, valor estimado para adquirir o Elevidys, uma injeção que age como uma terapia genética de dose única.

A família tentou conseguir o montante por meio de campanhas nas redes sociais, mas não chegou perto desse valor. Em paralelo, os pais moveram ações judiciais. Em relação ao Elevidys, atualmente o medicamento está temporariamente suspenso no Brasil. Em razão disso, a família buscou uma segunda opção enquanto não há uma decisão definitiva.

No fim do ano passado, com o valor obtido nas campanhas pela internet, os pais adquiriram, por cerca de R$ 1 milhão, dois frascos do Givinostat, um medicamento usado para pacientes com seis anos ou mais, que atua preservando a função muscular por mais tempo.

Na prática, o remédio ajuda a retardar os efeitos da doença e permite que Lorenzo tenha uma vida ativa por mais tempo. A substância foi indicada pela médica especialista que faz o acompanhamento do tratamento de Lorenzo. Diferente do Elevidys, esse remédio é de uso contínuo e precisa ser tomado todos os dias.  

Em fevereiro, os pais obtiveram uma decisão favorável junto à Justiça Federal para que o Givinostat seja adquirido e fornecido pela União. Desde então, a família passou a aguardar que o remédio fosse efetivamente entregue, antes que o menino deixasse de andar.

Lorenzo chegou a fazer uso deste medicamento pelo período de dois meses, com as doses adquiridas no ano passado. Durante o período, a família percebeu avanços. O menino deixou de cair com tanta facilidade. Quando o remédio estava no fim, os pais souberam da primeira decisão judicial favorável.

— Esse medicamento não vai curar o Lorenzo. Essa doença infelizmente não tem cura, mas tem esses medicamentos que, graças a Deus, Deus está mandando para nós, para manter essas crianças Duchenne fortes, em pé. Então, esse medicamento vai tardar a doença do Lorenzo. Até chegar um medicamento mais forte, mais potente, mais milagroso, para que essas crianças continuem de pé — ressalta Cíntia.

Nos últimos meses, a mãe tem percebido avanços da doença. Lorenzo, que até o início do ano conseguia correr, agora apresenta mais dificuldades de locomoção.

— Esses dois meses que tomou (o fármaco), estava dando um resultado bem bom para ele. Antes, ele caía quase todos os dias, frequentemente, e com o medicamento, ele conseguia se firmar nas pernas. Depois que ele parou de tomar, ele caminha mais torto, com mais dificuldade, mais cansado. Para vir do banheiro, vem se segurando nas paredes — descreve a mãe. 

O recebimento da medicação trouxe um alívio para a família do menino.

— A gente estava bem triste porque a gente estava demorando muito para conseguir esse medicamento, mas nunca perdendo a fé. Hoje, graças a Deus, sem a gente estar esperando, o medicamento chegou aqui na nossa cidade. A gente está muito feliz. Estou ainda sem acreditar. O Lorenzo está muito feliz, só gratidão. A luta ainda continua porque o medicamento não cura a doença do Lorenzo, ele ameniza. A força que ele já perdeu não recupera mais com esse medicamento, mas pelo menos não progride daqui para frente — explica a mãe.

Batalha judicial

Em 20 de fevereiro, o juiz federal substituto Bruno Anderson Santos da Silva concedeu o pedido de tutela de urgência para determinar à União a aquisição e o fornecimento do medicamento. No início de maio, o juiz federal Rafael Leite Paulo, da 3ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal, confirmou a tutela de urgência e condenou a União a adquirir e fornecer o medicamento na "quantidade e periodicidade prescritas no receituário médico constante dos autos".

O juiz fixou prazo de 15 dias para que a União comprove nos autos o cumprimento da obrigação. Desde então, a família vinha aguardando o recebimento do medicamento. 

Na tarde de quarta-feira, a Advocacia-Geral da União respondeu o contato de Zero Hora, informando que havia encaminhado após a decisão liminar ao Ministério da Saúde para que cumprisse a decisão judicial. 

O que diz a AGU

A Advocacia-Geral da União informa que após o recebimento da decisão liminar encaminhou ao Ministério da Saúde o parecer de força executória para a adoção das providências necessárias ao cumprimento da determinação judicial. Segundo informações técnicas prestadas pela pasta, houve o cumprimento integral da decisão judicial, com o envio do medicamento GIVINOSTAT (DUVYZAT®) conforme o quantitativo solicitado para o tratamento do autor.

A AGU reafirma seu compromisso institucional com o cumprimento tempestivo das decisões judiciais, observados fluxos administrativos necessários à sua concretização, circunstância que será devidamente comunicada nos autos do processo.

Doença rara

Lorenzo foi diagnosticado entre o fim de 2021 e o início de 2022, quando tinha sete anos. No entanto, os pais já vinham percebendo sinais desde que ele tinha quatro anos. A mãe relata que ele não corria e nem subia degraus, como outras crianças. Um exame genético, realizado em Porto Alegre, confirmou que se tratava da síndrome. 

A distrofia muscular de Duchenne é uma doença genética rara e degenerativa que atinge, em média, um a cada 3 mil nascidos e ocorre predominantemente entre os meninos. A doença afeta músculos do corpo e também órgãos internos, como os pulmões e o coração.

Operação policial

Nesta quinta-feira (28), a Polícia Civil gaúcha realizou uma operação policial contra um grupo que criou campanhas falsas na internet em nome do menino. A ação foi realizada no Paraná, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e em São Paulo pelo Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos.

Cíntia conta que, ainda em 2024, a família procurou a polícia e relatou que golpistas estavam se aproveitando da imagem do filho para divulgar campanhas falsas de arrecadação. 

 — Me dói o coração pensar que essas pessoas quiseram nos ajudar e foram enganadas — diz a mãe.

A família segue com um perfil ativo no  Instagram para reunir recursos que auxiliem no suporte ao tratamento de Lorenzo. 

Fonte: GZH


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