
A saúde pública de Santo Ângelo atravessa um momento de crise, marcado por relatos de falhas em atendimentos e por um impasse político que se reflete diretamente no sofrimento da população. Em entrevista ao programa Aldeia Global, da Rádio Sepé, o presidente da Câmara de Vereadores, Vando Ribeiro (PSDB), relatou cenários alarmantes de pacientes que enfrentam uma peregrinação interminável em busca de socorro, descrevendo a situação como um "ping-pong" institucional que está custando vidas.
Segundo Ribeiro, os vereadores têm sido o primeiro ponto de chegada de cidadãos desesperados em busca de ajuda. Ele citou o caso de um paciente que por vários dias aguardava cirurgia com seis costelas quebradas e duas perfurações no pulmão, enquanto o sistema de transferências permanecia travado.
Outro relato contundente envolveu uma criança de três anos que precisava de exame de imagem urgente para tratar de um problema de saúde. "Chega no hospital com encaminhamento e o hospital quer cobrar por equipe, e aí tranca o sistema", descreveu o parlamentar, explicando que o impasse burocrático impedia o atendimento prioritário.
O caso mais trágico mencionado foi o de uma senhora que buscou a Unidade de Pronto Atendimento dez vezes antes de falecer. "Na quarta vez que ela estava mal, a UPA transferiu para o hospital, já tinha vindo uma pancreatite e ela acabou fazendo uma cirurgia de emergência e faleceu", lamentou Ribeiro.
O vereador ressaltou que o sistema frequentemente empurra cirurgias urgentes para a fila de eletivas, forçando famílias a buscarem recursos particulares que não possuem.
A principal crítica técnica do parlamentar reside na falta de resolutividade das unidades de saúde e na comunicação deficiente entre a atenção básica, a UPA e o hospital. Ribeiro descreveu um ciclo vicioso em que pacientes são transportados repetidamente entre essas instâncias sem que o problema seja efetivamente resolvido.
"Essa pessoa fica correndo para lá e para cá de ambulância. Tem caso aí de quatro, cinco, seis vezes ele ir para o hospital e ser devolvido. O doente vai e volta, vira ping-pong e a família sofre", denunciou o presidente do Legislativo. Para ele, a UPA tornou-se um gargalo onde casos graves ficam represados porque o sistema hospitalar ou a coordenadoria de saúde não garantem a internação ou a transferência necessária.
No campo político, a tensão é alta. O prefeito municipal fez críticas públicas a vereadores que estariam "atrapalhando" a gestão da saúde, declarações que Ribeiro recebeu com preocupação, defendendo o diálogo em vez do acirramento do tom.
Questionado sobre a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a saúde municipal, o presidente da Câmara esclareceu que, embora exista um requerimento do vereador Lorenzo Tonetto (Novo), o documento conta atualmente com apenas uma assinatura, sendo necessárias cinco para dar seguimento ao processo. No entanto, ele não descartou medidas mais severas. "Se não tivermos essa resposta claríssima do que tem que melhorar, não vai ser uma CPI (que vai resolver), nós temos outros elementos que nós vamos acionar com muito mais rapidez, porque isto é crime", advertiu.
Uma reunião de trabalho foi convocada para esta quinta-feira, 28, com a presença de autoridades da Promotoria, do Conselho Municipal de Saúde, de diretores de hospitais e de representantes médicos. O objetivo central é estabelecer protocolos claros de atendimento para que a população saiba exatamente como e onde ser atendida, reduzindo a dependência de intervenções políticas para salvar vidas.
Apesar do pessimismo de parte da comunidade, Vando Ribeiro afirma que segue tentando mediar o conflito como um "bombeiro", dialogando com o Executivo e com as instituições de saúde. "O nosso foco é a saúde. Não é caçar ninguém. O meu foco é tentar resolver o problema", concluiu, reiterando que emendas parlamentares já garantiram infraestrutura ao hospital, restando agora avançar na gestão e na humanização do atendimento.