
O cenário internacional de conflitos, disputas comerciais e novas exigências sanitárias aumenta a pressão sobre as exportações brasileiras de proteína animal. A avaliação é do ex-ministro da Agricultura Francisco Turra, que analisou o tema em entrevista ao programa Aldeia Global, da Rádio Sepé, nesta terça-feira, 01.
Ao comentar as relações comerciais do Brasil com Estados Unidos, China, União Europeia e outros compradores, Turra classificou o momento como delicado. “Sob o ponto de vista da geopolítica, você nota conflitos, guerras, destruição e também essa posição de alguns países”, afirmou.
Para ele, o Brasil precisa agir com habilidade por ocupar uma posição relevante na produção mundial de alimentos. “O Brasil é um país que produz alimentos, é um país que produz energia limpa. Essa é a nossa grande vocação, essa é a nossa grande riqueza.”
Um dos principais alertas feitos pelo ex-ministro está na dificuldade de conquistar novos destinos para as carnes brasileiras. “Abrir mercado é muito complicado”, ressaltou Turra.
Ele recordou o processo de abertura da China para a carne de frango brasileira. Segundo o ex-ministro, foram aproximadamente nove anos de negociações, intercâmbio de documentos, visitas técnicas e missões entre os dois países até que o mercado fosse efetivamente liberado. “Faziam exatamente nove anos que a gente perseguia isso. Eram correspondências, informações, visitas de lá e de cá, vai para lá e volta, vem delegação e volta a delegação.”
Com a abertura, Turra lembra que as exportações cresceram rapidamente. “A gente passou, no mesmo ano, de 18 para 120 mil toneladas, de 120 para 300. E hoje a China é indispensável para nós”, afirmou.
Turra também chamou atenção para o cumprimento das exigências sanitárias dos países compradores. Na avaliação dele, cabe ao governo brasileiro garantir a fiscalização e fornecer segurança aos mercados internacionais. “Quem é que pode atestar que a carne brasileira que foi para lá não tem antimicrobianos? O privado? O dono do boi? Não. Tem que ser quem é o fiscal, o fiel da balança, que é o governo.”
Segundo ele, a falta de controles adequados pode provocar restrições comerciais e criar dificuldades para recuperar mercados posteriormente. “Esse tema sanidade e esse tema exigências do mercado que compra não são brincadeira. São colocações feitas porque é fruto de legislação deles próprios.”
Turra ressaltou ainda que os impactos são diferentes de acordo com cada cadeia. No frango, por exemplo, ajustes podem ocorrer em um ciclo produtivo relativamente curto. Na bovinocultura, o período maior entre criação e abate dificulta uma resposta imediata. “O frango, em 40 dias, você resolve. Não aplica, o governo fiscaliza, manda, reabre. Boi já é mais longo. [...] Nós podemos ficar, de repente, represados aí nesse tempo, tendo que realocar para outros mercados.”
Para o ex-ministro, uma eventual restrição imposta por compradores tradicionais pode gerar repercussão além daquele mercado específico. Ele citou especialmente União Europeia e Japão. “União Europeia, Japão, são mercado-símbolo.”
Turra explicou que uma suspensão ou dificuldade envolvendo esses destinos pode despertar atenção de outros compradores. “A União Europeia saiu? Opa! Acendeu uma luz vermelha lá”, exemplificou, ao defender acompanhamento permanente por parte das entidades do setor e do governo.
Além das barreiras sanitárias e comerciais, a instabilidade internacional também encarece a logística. Conflitos em rotas estratégicas elevam fretes, seguros marítimos e dificultam o abastecimento. “Navio cobrando um absurdo, seguro pesadíssimo para você chegar ao destino. Toda essa dificuldade impõe que você compre o mínimo, não para ter estoques grandes, mas para ir resolvendo o problema imediato.”
Mesmo diante das dificuldades, Turra vê espaço para o Brasil continuar ampliando sua presença internacional, desde que preserve os mercados já conquistados. “Falta comida no mundo. A comida no mundo é escassa, os estoques estão os mais baixos dos últimos tempos.”
Para ele, diplomacia, fiscalização sanitária e atuação coordenada entre governo e setor produtivo serão fundamentais para que o Brasil atravesse um cenário internacional marcado por instabilidade e mantenha sua posição entre os grandes fornecedores mundiais de proteína animal.
Redação do Grupo Sepé