POLÍCIA
05/11/2026 às 11:13 por João Gomes


Uma em cada quatro vítimas de feminicídio no RS buscou proteção

Uma em cada quatro vítimas de feminicídio no RS buscou proteção
Foto: Jonathan Heckler / Agencia RBS

Levantamento aponta que 18 das 68 mulheres mortas em 2026 tinham, tiveram ou solicitaram medidas protetivas. Santo Ângelo está entre os municípios com registros.

Das 68 mulheres vítimas de feminicídio no Rio Grande do Sul em 2026, pelo menos 18 tinham, tiveram ou solicitaram medidas protetivas de urgência contra seus agressores. O número representa aproximadamente 26% dos casos registrados no Estado e evidencia os desafios enfrentados pela rede de atendimento e proteção às vítimas de violência doméstica.

Os dados foram apresentados em reportagem publicada pela GZH nesta quinta-feira, 5 de novembro. O levantamento mostra que, mesmo após buscarem auxílio das autoridades, algumas mulheres continuaram expostas a situações de violência que terminaram em morte.

Entre os municípios onde foram registrados feminicídios envolvendo mulheres que haviam solicitado proteção está Santo Ângelo. A relação também inclui Santa Rosa, Porto Alegre, Sapucaia do Sul, Novo Hamburgo, Canguçu, Sobradinho, Mostardas, Esteio, Novo Barreiro, Santa Clara do Sul, Cacequi, Erechim e Camaquã.

Conforme o levantamento, pelo menos dez das 18 vítimas que buscaram proteção chegaram a solicitar a revogação da medida protetiva ou retomaram o contato com o agressor, mesmo quando a determinação judicial permanecia em vigor.

A promotora de Justiça Ivana Battaglin, coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do Ministério Público do Rio Grande do Sul, destaca que a concessão de uma medida protetiva é fundamental, mas precisa estar acompanhada de outras ações.

Segundo ela, o enfrentamento à violência doméstica exige acompanhamento individualizado, avaliação dos riscos e integração entre os serviços de segurança pública, Justiça, assistência social e saúde.

A promotora também ressalta que a dependência financeira, a falta de alternativas de moradia e as dificuldades emocionais podem contribuir para que mulheres permaneçam ou retornem a relacionamentos violentos.

Um dos casos recentes ocorreu em Sobradinho, no Vale do Rio Pardo. Julia Roseli da Silva, de 45 anos, foi encontrada morta no domingo, 1º de novembro, na residência do ex-companheiro. Ela havia solicitado medidas protetivas em 2021 e 2023. O homem, apontado como autor do crime, foi encontrado morto no dia seguinte.

Em Erechim, a venezuelana Evelin Del Carmen Betanco Vera, de 27 anos, foi assassinada a facadas em outubro. Ela havia recebido uma medida protetiva em 2025 e, dois dias antes do crime, procurou novamente as autoridades para denunciar ameaças. A vítima chegou a ser acolhida em um abrigo, mas posteriormente retornou ao convívio com o companheiro, suspeito do feminicídio.

Para Ivana Battaglin, a retomada de um relacionamento não significa necessariamente que a situação de violência tenha terminado. A promotora explica que relações abusivas frequentemente apresentam ciclos de tensão, agressão e reconciliação, exigindo acompanhamento contínuo das vítimas.

A delegada Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher (Dipam) da Polícia Civil, também defende o fortalecimento da rede de atendimento. Ela destaca que as medidas protetivas continuam sendo instrumentos essenciais para prevenir agressões e permitir a intervenção policial diante de ameaças e descumprimentos.

Conforme a delegada, aproximadamente 55 mil medidas protetivas foram concedidas no Rio Grande do Sul em 2025. O Estado também utiliza o monitoramento eletrônico de agressores em situações consideradas de maior risco, com cerca de 1,7 mil homens acompanhados pelo programa.

Apesar dos casos em que a proteção não conseguiu impedir o feminicídio, as autoridades ressaltam que as medidas judiciais desempenham papel importante na prevenção da violência e precisam ser acompanhadas por ações de acolhimento, fiscalização e assistência às mulheres.

Onde buscar ajuda

Mulheres em situação de violência podem procurar as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), outras unidades da Polícia Civil, a Brigada Militar e os serviços municipais de assistência social.

O atendimento também pode ser realizado por Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAMs), unidades de saúde e órgãos da rede de proteção.

Em situações de emergência, a Brigada Militar pode ser acionada pelo telefone 190. O Ligue 180 oferece orientação e encaminhamento de denúncias de violência contra a mulher.

Redação do Grupo Sepé com informações de GZH


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