
Santo Ângelo avança em mais uma edição do Dia do Campo Limpo, campanha que enfrenta um dos desafios ambientais mais persistentes da zona rural: o descarte correto de embalagens de defensivos agrícolas. Com apoio da prefeitura municipal, do Ministério Público e da Emater, a iniciativa leva a coleta diretamente às comunidades do interior, reduzindo a barreira logística que frequentemente impede o pequeno produtor de cumprir a obrigação legal.
O programa integra o Sistema Campo Limpo, programa brasileiro de logística reversa de embalagens vazias de defensivos agrícolas, considerado referência mundial em economia circular.
Apesar das chuvas intensas que atrasaram o cronograma inicial, as equipes da Secretaria do Meio Ambiente já percorreram diversas comunidades rurais do município. O secretário André Pedroso destacou que, logo nos primeiros dias, localidades como Atafona, Buriti, Três Sinos e São Pedro apresentaram volume expressivo, com cerca de 600 a 700 embalagens recolhidas por unidade. No ano anterior, o total ultrapassou 14.000 embalagens destinadas corretamente em todos os locais atendidos.
A Promotora de Justiça Paula Mohr ressalta que a campanha cumpre um papel de aproximação entre o poder público e o produtor rural. "O trabalho é facilitar para o produtor o descarte adequado. Isso visando, obviamente, a qualidade do meio ambiente e também a saúde pública", afirmou durante entrevista ao programa Aldeia Global, da Rádio Sepé.
A edição deste ano apresenta uma inovação concreta: o projeto piloto de abrigos temporários para armazenamento das embalagens nas propriedades rurais. O objetivo é evitar que os recipientes fiquem expostos ao tempo, a animais ou a crianças enquanto aguardam a coleta itinerante. O primeiro modelo foi construído em uma propriedade na comunidade de Santa Rita, e serve de vitrine para outros produtores da região.
O abrigo consiste em espaço cercado, com piso isolado e cobertura, seguindo normas técnicas específicas de armazenamento. A ideia partiu da observação de embalagens que chegavam sujas e "embarradas" aos pontos de coleta, sinal claro de armazenamento inadequado. "Nós conseguimos durante o ano passado tirar essa ideia da cabeça, colocar no papel e colocamos ela em funcionamento e esse abrigo está pronto lá", revelou a promotora.
A partir do modelo-piloto, o projeto deve ser expandido para mais seis propriedades por meio de edital do Comdema — o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente de Santo Ângelo, criado pela Lei Municipal nº 2.510/2002, que estruturou o Sistema Municipal de Proteção Ambiental do município.
O descarte correto dos recipientes é uma obrigação legal de todo agricultor. A legislação estabelece prazo de um ano, a contar da compra do produto, para que o produtor realize a devolução. Para ampliar a capacidade de absorção desse volume, a prefeitura de Santo Ângelo também cedeu uma área à empresa Preservar, viabilizando a expansão do entreposto de recebimento.
A medida é estratégica não apenas para o município, mas para toda a região. A promotora Paula, que também atua na promotoria regional da bacia hidrográfica do Rio Ijuí, projeta replicar o modelo do Campo Limpo em municípios vizinhos — como já ocorreu em Eugênio de Castro, onde foram recolhidas 18.000 embalagens em apenas três dias de campanha.
Além das embalagens de defensivos, o poder público já identifica demanda para o recolhimento de lixo eletrônico nas comunidades rurais, visando impedir que componentes tóxicos contaminem o solo ou cursos d'água. O encerramento da campanha desta semana segue com coleta na manhã de terça-feira nas comunidades do Rincão dos Mendes e à tarde no Rincão dos Meotti, e na quarta-feira na parte da manhã no Distrito do Sossego e à tarde em Santa Rita.
A iniciativa consolida Santo Ângelo como referência regional na gestão de resíduos rurais, transformando uma exigência legal em ação coletiva de preservação ambiental.